sexta-feira, 21 de março de 2014

Chance


Denis Núñez Rodríguez, pintor cubano

O dar também faz parte do processo libertador de aprender a ser. Porque quem sempre teve pouco, acaba acreditando que o universo inteiro é apenas a sua aldeia. E não tem nada de mal nisso, já disse Pessoa, naqueles versos mais que conhecidos.

Mas a aura dessa metáfora perde sentido quando a vida prática vai pedindo logo seu Lattes. Assim, na lata.

_ E agora, Josés e Marias?

Defendo aldeias e defendo universos. E acredito fielmente que estes estejam naquelas, mas também em muitos outros lugares. Inclusive nos que ainda nem foram descobertos e muito menos nomeados. E que esses lugares, em algum momento, por alguém ou alguéns precisam ser revelados e apresentados para que nossas aldeias interiores se expandam para além de si próprias.

Eu não conheço isso, mas sou capaz de estabelecer com o desconhecido uma conversa íntima desde tempos imemoriáveis. Seriam os ecos do que fui, do que sou ou de quem eu, absurdamente, posso me transformar?

Mas eu nem tenho medo de tudo isso porque temor maior sinto em não submeter corpo, alma e pele às experiências que poderão, um dia, talvez, assim de surpresa, me fazer reconhecer em mim mesma algo que nunca supus perceber. Muito menos admitir.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Capas de chuva

Guilherme Kneipp, fotógrafo brasileiro


Infinitos são os momentos para um contato profundo consigo mesmo, ainda que raros sejamos os que estejamos, ao menos vez ou outra, alertas para esse contato. Revelador, quase sempre.

Entre os que pertencem ao grupo dos distraídos, embora se creiam, antes, prevenidos, estão os que compram capas de chuva.

Sei que água molha, pedra dura, essas coisas. Mas e quanto aos assaltos de poesia, aos quais o cotidiano, por exemplo, em passeios ultra planejados, nos arremetem?

Poesia também precisa de hora marcada?

Talvez não, mas vendedores ambulantes são mestres em obnubilar ainda mais nossa percepção da proximidade do belo. Desvio de rota que até pode garantir alívio, embora subtraia sensações várias e imprevisíveis decorrentes da alma que apenas vai.

No caminho, como em um programa de auditórios, obstáculos mil: fotógrafos que vendem você em uma paisagem, cuja beleza você nem teve chance de desfrutar; turistas afoitos em abduzir o visto em centenas de disparos fotográficos e, finalmente, o solitário vendedor de capas de chuva. Assim, bem na única entrada de um longo corredor entre cascatas. Entre as Cataratas do Iguaçu.

Pensei no intenso calor que fazia e na água que refrescaria meu corpo. E pensei também no mesmo sol que secaria ligeiro minhas roupas.

7 reais!!!! Capas de chuva! Duas por 10. Tá acabando!

Parei de pensar antes que fosse convencida pelo engano da proteção que possivelmente teria vestindo uma capa de plástico.

Foquei nos rostos que vinham em minha direção. Rostos, pernas e braços molhados.  Sorrisos nacionais e estrangeiros que transbordavam vida.

Fui. Desprotegida e atenta ao meu gozo e ao alheio. Queria multiplicá-lo quantos fossem os sorrisos, olhos e corpos que passassem por mim. E eu por eles. Afinal, um corredor humano entre torrentes de água por todos os lados quase nos tornava uma só coisa: pequeninos seres que reverenciavam estupefatos a magnitude da natureza que bela era simplesmente por estar ali.

Mas fui precipitadamente arrancada desse cenário por uma imagem que vinha lenta em minha direção: uma mulher vestida de negro que sorria feliz com as gotas das cascatas que não preservavam seu rosto árabe.

Via o negro de sua túnica cedendo pouco a pouco à implacável umidade do entorno e vigiava, de longe, o homem que seguia vendendo proteção.

Teria ele abordado essa mulher? Teria se sentido, ao menos como eu, agora, estúpido por defender certas proteções quando o cálido da vida surge justamente quando estamos nus?

Olhando agora de longe para ela, e bem de perto para minhas mãos, braços e pernas expostos, me regozijava altiva por ter me esquivado dos argumentos do vendedor e por ter tido a sorte de ser brasileira.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Por que?

Clarice Lispector, escritora brasileira



Ninguém disse que seria fácil.

Você pode até optar por abrir mão de todos os seus sonhos, projetos pessoais ou íntimos. Mas isso não a tornará heroína de um tempo em que se exige o máximo de todos (homens e mulheres) a qualquer hora, por qualquer pessoa (conhecida ou desconhecida) em tribunais públicos ou privados.

O que importa mesmo é que de você seja extraída essa força (que todos sabem, mas pouquíssimos reconhecem). De tal modo que mal sobre de você senão essa sensação diária de cansaço, de exaustão. Como se o mundo tivesse que ser construído não em sete dias, mas em apenas um.

E se é bem assim a ilustração de sua vida pessoal, por que assumir com tanta facilidade o lugar do abjeto, do inútil, do desprezível? Se você é capaz de se deslocar tão corajosamente pelos mais fortes, desconhecidos e áridos caminhos?

Por quê?

sábado, 9 de novembro de 2013

Nos(otros)

Escher, artista gráfico holândes


exactos diez días.
días intensos de entrega, presencia, complicidad.
sudor, saliva y semen.

y entre todo la urgencia
del freno, del respiro,
ante la palabra impulsiva que desea asaltar al oído ajeno.

pero en la distancia,
necesaria,
donde nos descubrimos llenos de nosotros mismos
o donde nos ponemos, irremediablemente, frente a nosotros mismos,
percibimos, muy seguros, la urgencia
de un tiempo para nosotros.
para nosotros dos.
unidos.
como sea.

sin que, ni por un segundo, sin embargo
nos perdamos de nosotros
en la indispensable singularidad del yo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Detalhezinho

Pierre Matter, escultor francês

Precisava de um computador e internet pra trabalhar. Um básico, sem o qual não conseguiria sair do lugar.

Poucos meses depois percebeu que necessitava mesmo era de um computador portátil relativamente leve que coubesse em bolsas, mochilas ou sacolas (sem precisão daquela cerimônia mortuária pra guardar cabos num lugar, computador noutro....) e uma boa conexão de internet.

Avançando um pouco mais notou que tinha necessidade de relativo silêncio (tudo bem se os pinschers da vizinha vez ou outra se engalfinhassem), luz amarela fluorescente e pés aquecidos (por meias comuns, no início, mas mais adiante, por sapatinhos de lã que também existiam pra adultos, naquela lojinha do Beco da Tecla, e que a deixavam verdadeiramente mais feliz).

Superadas essas etapas, vinham outras cujas sutilezas a deixavam, vez por outra, estupefata: o cactus ficaria melhor no lugar daquele banco que, na verdade, precisava mesmo era ficar próximo ao sofazinho para que houvesse lugar onde apoiar xícaras, copos, lanchinhos, enquanto trabalhasse.

Dito assim parecia que uma coisa desencadeava outra, numa lógica linear e crescente, cujo resultado não poderia ser outro senão a satisfação.

Nada disso.

Tudo isso só podia ser construído por uma linha sutil que só a delicadeza do olhar que avalia pra salvar dá conta de tecer. Costura necessária, diária, infinita capaz de produzir felicidade, por exemplo, aproveitando garrafa de vidro de suco de uva pra transformá-la em recipiente pra guardar leite na geladeira, desdobrando isso na beleza do contentamento de ver a cor do alimento anos a fio escondido pelas embalagens tetra pak.

Mas o silêncio que afirmava precisar também tinha que vir de dentro. E assumiu que, antes, urgia descobrir o que teria que comprar, buscar, superar, esquecer... ou, ao que teria que se dedicar. A parada aí sempre era longa e trazia, obviamente, uma série de aprendizados e, junto com eles, uma lista de coisas que precisava providenciar, fazer, cuidar, reler, descartar...

Da luz amarela fluorescente retirava um pouco de calor nos intermináveis dias frios de sua cidade, a despeito de não convencer muito que isso efetivamente aquecia. Mesmo insistindo na argumentação de que a branca remetia a hospitais e que casa tinha que ter mais jeito de ninho que de consultório de dentista.

Quanto aos pés aquecidos, gostou de verdade da felicidadezinha que sentiu ao ver amarrada à etiqueta de uma blusa um envelopezinho feito de papel manteiga e, dentro dele, um botão e um pedaço significativo de linha branca. Se o botão se soltaria ou não da prenda de roupa comprada, pouco importava. E não importava não porque isso fosse irrelevante (aliás, quando o tema é roupa sem botão na hora de sair, todo mundo sabe bem a chateação que é), mas porque esse detalhezinho lhe abria outras tantas possibilidades: a de pensar em consertar suas próprias roupas (mais ainda, de ficar atenta se elas precisavam ser reparadas), a de guardar esse botão em um lugar no qual, quando realmente precisasse, dele se lembraria...

Quantos aos pés, eles continuavam gelados, mesmo depois das duas meias que pusera. Mas se sentia deveras aquecida por se dar conta que havia outros seres espalhados por aí que lidavam com coisas cotidianas de um jeito mais humano. Por ora, isso era suficiente.

Mas um lampejo de pessimismo quase destruiu suas divagações polianescas: e se dedicássemos esse filosofar no cuidado de gente? Será que precisaríamos de toda essa burocracia de coisas pra sermos felizes?

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ao pé da letra

Alexey Bednij, fotógrafo russo

Não se tratava de um jogo. Era vida marcada em brasa por uma infinidade de sonhos perdidos, desvios de trajetos, encruzilhadas de planos cujas decisões clamavam por nãos insólitos em meio à fugacidade de certos prazeres que duravam menos tempo que o cheiro de sexo que cansou de impregnar mãos e bocas.

Contra isso pouco podia fazer. O certo seria terem lhe advertido antes de se lançar nessa busca insana e anacrônica pelo bom moço que lhe salvaria da solidão, da tristeza, da opressão por duas tranças ou por um pé de sapato.

O conto agora era outro. A mocinha, super descolada, sabe exatamente o preço, quase sempre alto demais, pra que um galegozinho de barbicha rala lhe alce uma espada e ela, fingindo uma fragilidade que nunca teve, se sinta, durante alguns parcos minutos a mulherzinha amada para sempre das histórias novelescas ou de encantamento cultivadas pelo imaginário de sua geração. E das posteriores, infelizmente.

Balela.

Diante de um mercado inflacionado em todos os sentidos, pretender atitudes coerentes por parte de semideuses, porque, claro, muito são o tesão encarnado em muques, pelos e sêmen, é, sem dúvida, uma tremenda estupidez. Quase como entrar na cabine daquele programa do Silvio Santos e trocar uma Hillux por uma banana caturra.

Mas se mais vale um gosto... Vai minha filha! Vai!

Vai se fuder! Ao pé da letra.


sábado, 18 de maio de 2013

Rota de viagem

Fotografia de autoria desconhecida

Foi num voo Marabá-Brasília.

O comandante dizia o de sempre. E em duas línguas. Texto mais que conhecido pra quem ultimamente elegera manter os pés mais tempo nas nuvens do que em terra firme.

Enquanto isso pessoas de pele bem morena, cabelos lisos e pretos, procuravam seus assentos. Vinham de shorts mostrando o elástico da calcinha, de chapéu de vaqueiro, relógio tipo rolex e mochila parecida com aquelas da Company. Mistura desregrada que certamente deixariam os que costumam viajar de Ray ban, Galaxy SIII e bolsa Louis Vuitton de cabelos em pé.

Não havia desconforto daqueles em ali estarem. O incômodo era meu mesmo.

Tinha acabado de ler um belo conto de Mia Couto no qual a seguinte frase me esfaqueara: “A pessoa viaja é pra ser esperado”.

Eu não. Esse luxo nunca tive. Nem nunca esperei por ele.

Mas nem era sobre isso que queria falar...

A vontade de escrever veio mesmo após o comissário de bordo dizer um par de coisas que foram traduzidas em três línguas. Incluindo o japonês.

Ri alto.

Olhei para o lado e o senhor de mochila mirava calmamente seu relógio de pulso, enquanto acomodava seu chapéu sobre o rosto, sem despregar os olhos das nuvens pelo quadradinho da janela.

Em quê pensava?

Haveria tradução possível que o desviasse de si próprio? Haveria alguém esperando por ele lá embaixo?

Seja como for, eu já o aguardava. Na verdade mais que isso: fitava-o acompanhando seu ensimesmamento de homem simples.

Em qual idioma seria possível falar com ele senão reverenciando sua poética por meio dessas parcas linhas?

P.S: ele escolheu beber coca zero e pareceu gostar do polenguinho sabor gorgonzola. Enquanto eu reparava bestamente na pronúncia da aeromoça que, de novo em duas línguas, dizia ser proibido um montão de coisas. Mas não entre elas, viajar para além da rota traçada para aquele avião.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Punheta


Diego Rivera, muralista mexicano

Se todo homem desvestisse a couraça limitadora do machismo e visse a mulher como uma parceira e não como uma ameaça, seria possível crer em uniões duradouras, porque felizes seriam.

A gente compreende, inclusive, os medos que impulsionam atitudes tirânicas e pouco afeitas ao reconhecimento da perspicácia do outro. Mas nem sequer discorrer sobre eles é possível quando instaurado está o desejo de subjugar para mascarar precariedades. No entanto, mesmo silenciada, sua voz grita, a feminina, sua presença se impõe como um doloroso incômodo que emudece as alegrias que surgiriam se não fosse essa estúpida pretensão de se crer dono de tudo: da verdade, do conhecimento, da razão que mina a energia que costuma impulsionar as ganas de amar, a vontade de cuidar, o gosto em acolher.

Punheta é bom, mas não afaga o peito cansado da lida do dia a dia.

Punheta relaxa, mas não dispensa o abraço doce que se insinua tímido depois de uma jornada de trabalho.

Punheta alivia, mas não alimenta sozinha uma existência ávida de gozos múltiplos e diversos.

O único tesão que salva é aquele em que o sexo em riste aponta para o sexo do outro para a consumação do encontro e não o que aponta para o seu próprio ego.