terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Devo ser mesmo muito antiga


Autor desconhecido

Devo ser mesmo muito antiga.
Só assim para justificar minha falta de jeito. Meu descompasso.
Não me reconheço nas músicas dos restaurantes, no assunto da mesa ao lado. Aliás, as músicas dos restaurantes são as mesmas das academias de ginástica, as mesmas das propagandas de roupa de grife, de cosmético, de creme dental (que não vejo, claro, mas apostaria um rim por isso).
Com isso nem pretendo dizer que seja do tipo especial ou um ser escolhido. Também falo de amor, de dor… grana, trabalho, família.
Não mesmo.
Mas como justificar não saber as fofocas da vida alheia (de familiares, vizinhos, colegas de trabalho)?
Minha mãe semana pasada, que mora em BH, passou mal e só soube, por acaso, porque um primo de Governador Valadares postou no grupo do Whatsapp da família (mais dele do que minha, diga-se de passagem) pedindo aos demais que o avisassem se tivessem mais notícias da saúde da minha mãe.
Desconfiei que estava por fora.
Liguei imediatamente pra ela e ela disse que me avisaria se fosse grave.
De duas uma: ou não combino com nada porque a gravidade dos temas não encontra equilíbrio na gravidade da vida que levo ou sou mesmo um ser muito antigo. Fora de moda. Dos eixos. Aliás, do eixo Rio-Miami, inclusive, porque nem visto para entrar nos EUA consegui. Mesmo sendo funcionária pública federal, mesmo tendo imóvel e nenhum desejo de morar longe de Diamantina, São Gonçalo do Rio das Pedras, São Gonçalo do Rio Preto, Conselheiro Mata, Milho Verde, Curralinho, Guinda, Serro…

sábado, 25 de abril de 2015

Desvarios e algaravias

Pierre Matter, escultor francês


Estar "em vias de"
establece
um lugar delicado, quase inefável, no qual o impossível arranha forte a carranca conformada -indispensável traje de gala - dessa gente que espera da vida somente o prato de entrada.

Eu não!

Quero desvarios e algaravias.

Vertigens cotidianas que desenhem vias várias para que encontros com o inevitável, com o absurdamente urgente, não se deem enquanto projeto, mas compasso, cujos ecos reverberem não o mesmo de si, mas ele e o que de ancestral, dele, se possa extrair.

E diante dessa deliciosa experiência reconhecer parentesco de loucura para além do próprio ser e se ver,
com ele,
num impulso de correria,
celebrando o universo como casa,
o impalpável como meta,
a poesia como ar e
o ser em si…
como insana pretensão.

sábado, 21 de março de 2015

Embaraço


Cena do filme peruano "La teta asustada"

A gente sabe!

A gente SEMPRE sabe!!!

A gente sabe a hora de parar, de acreditar, de se jogar, de desistir, de assumir, de sumir, de enfrentar, se enfrentar... de aceitar certos milagres.

De entregar os pontos ou usá-los na costura de outras histórias.

Mas a gente não bota fé.

Protela, cozinha em banho-maria, duvida, vacila, teme, treme, mas a gente não escuta.

Não escuta aquela mensagenzinha (intuição, acreditam alguns) invisível, imaterial, efêmera que é, todos sabemos bem, imperceptível(?)… Um quê de poesiazinha, grávida de sentidos avassaladoramente necessários, debulhados tantas e tantas vezes em plegarias sem-fim, em novenas, promessas, rezas e/ou rios de lágrimas vertidos em travesseiros nem sempre quentinhos ou em Kleenex (versões bolso ou caixa, o que tiver à mão). Ah… Ou, ainda, entre uma dose e outra de Claudionor (para os mais sortudos).

Texto sensorial que vem sabe lá de onde (da pele? das vísceras? das mitocôndrias? de Nárnia?) que vai imprimindo, à revelia de nossa estúpida racionalidade, em cada gesto nosso, uma nova e irrevogável ordem de ser o si próprio.


E ainda assim, a gente, cara de pau demais, sai por aí dizendo que “não é nada não”, mesmo com uma granada a ponto de explodir dentro do peito. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Lápis de cor


Frida Kahlo, pintora mexicana

Passa-se quase sempre toda uma infância ou, em casos extremos, toda uma existência submetidos ao esforço familiar para cabermos em formas. Pra não se machucar, não cair, não tomar choque, não quebrar pernas, braços ou bibelôs. Pra não ser mal educado, desbocado... Não ser a gente. 

E quando, ingenuamente orgulhosos de nós mesmos pelo reflexo do orgulho altivo do mundo, superamos finalmente todos esses limites é que estamos prontos pra fazermos a trajetória contrária. O caminho de volta, se quisermos ter alguma chance de experimentarmos outros lápis de cor além dos tons de cinza que nos ofereceram para pintar o que, frequentemente, costumam chamar de vida.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Acolhida

Juliana Leal, fotógrafa amadora

Sem precedentes são os frutos que brotam quando sobra disposição para a acolhida delicada do infinito contido em cada ser que se conhece quando se está trilhando, com coragem, o próprio caminho. Sendas que reservam menos espetáculos pirotécnicos que zilhões de minúsculos milagres que percebemos sempre e quando o objetivo da trajetória é o encontro com aquilo que, em teoria, mais deveríamos conhecer e amar: nós mesmos. Afinal, “o que você está buscando, está te buscando também”. Aceitar de coração e braços estendidos o tanto que tantos nos vão oferecendo no percurso desse irrevogável encontro consigo mesmo passa a ser tão vital quanto a necessidade do corpo que cede ao irrefreável abismo do gozo, quando simultaneamente compartilhado.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

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Juliana Leal, fotógrafa amadora

Atenção: tudo o que será dito aqui não passará de variações mais ou menos lúcidas de uma série de clichês e lugares comuns sem os quais parece que, nós, seres humanos, não conseguimos viver.

Elenco três para não ser mais pedante do que necessitarei ser para discorrer sobre eles.

1. A lucidez só se apresenta depois de experimentadas doses cavalares de estupidez. Sobre isso algumas divagações: estar lúcido não significa agir corretamente. Funciona, às vezes, a partir de descargas elétricas espaçadas e quase sempre imperceptíveis. Muitos nem as notam. Mas quando as sentem costumam recordar, em flashes rapidíssimos, cenas cotidianas das mais bestas, embora carregadas de uma carga poética que frequentemente revira o valor que a vítima tem dado ao seu tempo presente. Costuma-se sentir descargas elétricas fortíssimas de culpa e doses heróicas de vontade de experimentar algo semelhante de novo. Afinal, cagar é fisiológico, portanto, impossível evitar. Esquisito aqui é cagar justo no poético, quando se sabe que algumas residências acumulam de dois a três vasos sanitários.

2. O aumento da percepção de algo é diretamente proporcional à distância que se toma dele. Aqui, o costumeiro metodismo que exigem as análises empíricas, baseadas em observações atentas e uma necessária proximidade do objeto, não tem nenhum sentido. Vale quase nada. O mandamento é, ao contrario, único e funciona a palo seco: preciso não ter o que amo para me dar conta de que o amo, temperando a receita com um par de suicídios que se dão cada vez que insistimos em rechaçar o inevitável, o que para nós é indispensável, quando escolhemos prazeres de vitrine que nos prometem gozos transcendentais por uma noite e com absoluta discrição. Sem, no entanto, nos advertir que a ressaca dos dias seguintes não será apaziguada com medicamentos de tarja preta, mesmo se tomados por toda a vida.

3. Aproximar a ideia de amor a de posse só se justifica se entendida como um gesto de profundo desconhecimento de si próprio e dos insuspeitáveis limites do próprio ser. Escraviza-se por temor ao impalpável que poderia oferecer o desconhecido? Seria a vida, nesse sentido, uma estúpida repetição do mesmo passo, do mesmo tango, da mesma dor? O que exatamente se pretende quando se diz “te amo”, mas contigo não posso estar? Sadismo a la carte, masoquismo compulsivo ou simplesmente medo de ser feliz?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Desfile

Foto de Sebastião Salgado, fotógrafo brasileiro

Não pôde respirar profundamente, de delírio ou terror, porque tudo acontecia à sua volta rápido demais para ter tempo de identificar, compreender e decidir-se. Ou tomar partido, politicamente falando.

Era capaz, no entanto, em meio ao turbilhão de infinitos mundos de sonhos, narrativas de pavor e amor ao seu redor, identificar um zilhão de detalhes que impedia que sua existência despencasse nas garras do desamor e da inexperiência (ou seria medo?) dos seres à comunhão que não reparte apenas pães, mas consideração e respeito.

Observou entre o trânsito caótico do centro da cidade a moça negra que ia de salto bicolor (preto e branco) de pelica. Usava short estampado florido, blusa de alcinha verde com as alças do sutiã preto à mostra.

Fui incapaz de reagir pautada numa lista de regras ou padrões estéticos. Via ali uma rainha que se equilibrava cuidadosamente em seus sapatos novos entre pedras de um calçamento que outrora foi passarela para o açoite diário de seus antepassados. A mesma cautela que talvez levava o vagalume a brilhar modesto em meio às dezenas de luzezinhas que enfeitavam tantas e tantas casas naquele Natal, ainda que entorno de si houvesse a necessária escuridão para fazer imperar seu brilho.


Mas eu e ela (ele, talvez) sabíamos que não era hora. E que ela viria quando tivesse que vir. Sem explicações. Do mesmo modo que, também sem explicações, emudeceria.

sábado, 4 de outubro de 2014

Suspensão

Kandinsky, artista russo

O som externo não poderia ser mais patético. Não combinava com o concerto interno que levava dentro. Nem sequer um pedaço de pneu de caminhão na estrada, arremessado abruptamente contra o parabrisas de seu carro, a assustara.

Susto maior já havia sentido quando, lançando mão dos dedos, fizera uma conta rápida para calcular o tempo que passara sendo tudo menos ela mesmo. Menos por opção que por condicionamento. Um tanto cuja dimensão decidira desinstalar pouco a pouco pela prática determinada de um sem fim de subverzõeszinhas cotidianas. Ações corriqueiras carregadas de um simbolismo que a faziam se reconhecer cada vez menos como um hamster dentro de um par de tubos coloridos que imitavam pateticamente, mas para a felicidade de muitos, um estúpido parque de diversões.

Experimentava corajosa um afastamento paulatino daquilo que em teoria mais deveria amar. E constatava, não menos horrorizada, que a quietude impávida da cicatriz costumava ser, antes, latejante ferida. E sonhava acordada em sentir seu corpo coberto delas para que pudesse escutar somente a pulsação de seu desejo desesperado em ser tudo aquilo que poderia ser por opção própria.

E suspensa numa névoa feita da mais profunda solidão resolveu: sim, preferia flutuar no vazio. Ao menos esse o havia criado ela. Ele e todo o inominável que viria depois.