segunda-feira, 15 de abril de 2013

Punheta


Diego Rivera, muralista mexicano

Se todo homem desvestisse a couraça limitadora do machismo e visse a mulher como uma parceira e não como uma ameaça, seria possível crer em uniões duradouras, porque felizes seriam.

A gente compreende, inclusive, os medos que impulsionam atitudes tirânicas e pouco afeitas ao reconhecimento da perspicácia do outro. Mas nem sequer discorrer sobre eles é possível quando instaurado está o desejo de subjugar para mascarar precariedades. No entanto, mesmo silenciada, sua voz grita, a feminina, sua presença se impõe como um doloroso incômodo que emudece as alegrias que surgiriam se não fosse essa estúpida pretensão de se crer dono de tudo: da verdade, do conhecimento, da razão que mina a energia que costuma impulsionar as ganas de amar, a vontade de cuidar, o gosto em acolher.

Punheta é bom, mas não afaga o peito cansado da lida do dia a dia.

Punheta relaxa, mas não dispensa o abraço doce que se insinua tímido depois de uma jornada de trabalho.

Punheta alivia, mas não alimenta sozinha uma existência ávida de gozos múltiplos e diversos.

O único tesão que salva é aquele em que o sexo em riste aponta para o sexo do outro para a consumação do encontro e não o que aponta para o seu próprio ego.

domingo, 17 de março de 2013

Luxo


Juliana Leal, fotógrafa brasileira amadora

Não dá trabalho amar, não. Dá trabalho é curar a ferida do desamor. Feita da espera inútil, do abraço vazio, do encontro nunca marcado, mas permanentemente esperado. Ferida que lateja pra lembrar que está ali, ainda que não se queira, ainda que se tente, conscientemente, esquecê-la. Afinal, certeza é um luxo do qual a gente não precisa. Nem para o alívio da dor. Pois serventia sempre há para o incômodo. Nem que seja só pra fazer lembrar que a felicidade também decorre dos riscos que assumimos. E que, junto com eles, também está no script um par de dissabores ou de fel no canto da boca.

Não é a toa que o adeus contido já está no encontro; a saudade, no reencontro e o fim tão logo se profere sins.

Que fazer senão reverenciar todas as formas de vida, inclusive aquelas que surgem em nuvens fugidias num céu azul de fim de tarde paraense?

sábado, 16 de março de 2013

Plural


Giovanni Marrozzini, fotógrafo italiano

Pra muitos, mais uma sentença que uma demonstração de afeto. Aprendi na escola.

Coloque no plural!

Pra pluralizar só passando pelo imperativo mesmo. Afinal, quem nessa sociedade do medo, da individualidade patológica, da singularidade que emudece a comunhão que, antes de tudo, quer doar está disposto a incluir sem achar que se está fazendo concessões irreversíveis? Sem deixar de pensar que se anulará na razão exata do espaço que conceder ao outro?

Tolice.

Hordas e hordas de seres, indiscutivelmente singularizados, vagando por aí. Saltando de ser em ser pra sorver de cada um deles, por uma noite, às vezes, até mais, a energia vital da cumplicidade que salva.

Ver um filme, jantar, tomar café da manhã, viajar, fazer compras...

Mire veja: o plural está em toda parte. Inútil singularizar o que só sobrevive com graça entre os nós de nós mesmos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Carta aberta de Natal

Zé Rocha, fotógrafo brasileiro


Não tenho nada pra pedir não. Acho que tenho é pra fazer mesmo. Pra variar.

Mas, antes, devo agradecer. Por cada soco nos sonhos que tinha. Eles não dariam conta de germinar ao lado de tanto vômito. Perto de tanta unha arranhando quadro de escola.

Não combinava.

Sonho, desejo, afeto gostam de abrigo quente e macio. Cabelos soltos em balanço de parque, num fim de tarde de um domingo qualquer, sabe? Regaço sólido da casa da mãe, lugar onde o fogão sempre está pronto pra alimentar o ventre faminto do filho que regressa.

Mas ainda bem que peixe que tem consciência de isca, não morre pela boca.

Mas e de isca que atrai coração bolha de sabão? Dá pra escapar?

Ano doido, comprido, intenso. Janeiro e fevereiro poderiam ter sido, sozinhos, pra mim, os 365 dias do ano todo. Ano que todo mundo acreditou que se findaria no vigésimo primeiro dia do mês de dezembro.

Mas mire e veja: o mundo acaba é todo dia.

Infinidades de tragediazinhas que fariam a festa de serviços do tipo tele-afeto. Desses que a gente ligaria e pediria um X-cafuné com carinho e delicadeza que, lógico, chegaria em, no máximo, 8 minutos.

Mas não! Afeto dos bons não flui no sistema delivery. O melhor demanda tempo. Exige crença firme naquilo que não se vê.

Repare: não acreditar no improvável torna as coisas ainda mais inacessíveis.

Por isso, esse Natal vai ser diferente porque a responsa dos presentes vai ficar por minha conta mesmo. Tenho muito que celebrar a vida dessa multidão de seres que contabilizo em apenas uma de minhas mãos. Eles merecem meu lado melhor. O lado mais bonito de mim. Lado que eu mesma desconheço, mas sei que existe. Sei que existe.

Só resta saber se eles vão dar conta de esperar a hora de abrir esses presentes

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobre ocos e apoteoses


Edvard Munch, pintor norueguês

Então era isso? Só isso?

Mas também não tinha porquê ser muito, se o que se espera das coisas é quase sempre mais do que elas efetivamente podem nos proporcionar. Porque o muito quase sempre se encontra em algum lugar exterior a esse outro que insistimos em coisificar. O outro é apenas outro. Com suas contradições e mazelas.

Pra quê, então, apostar arco-íris no campo minado de nossos escuros existenciais?

A gente sempre machuca. Sempre se machuca.

Mas e se nos intervalos da apoteose da dor, for possível sentir a libertação desse inevitável da vida?

Rajadas de vazio se preenchem com arroz e feijão?

Não! Eu não queria gostar mais de você do que de mim. Mas admito, sem culpas, que sempre fui melhor de verbo que de ação. Eu queria mesmo era me lambuzar com as possibilidades de vida e de morte da convivência com ambos. E com toda a complexidade da vida que compusesse seus entornos. Nossos entornos. Até não mais haver limites... Até não mais haver razões para defendê-los com bambus ou arames farpados.

Eu não tinha mesmo nada pra fazer. Qualquer resto de vida, herança dos que sabem cultivar a família, a despeito de pragas diversas que muitas vezes se alojam no cotidiano, conclamando a solidão, o vazio, o egoísmo, eu defendia. Eu queria.

Aliás, o egocentrismo sempre me pareceu a forma mais estúpida de enfrentar a carência, o desamor, a desesperança, o desafeto...

Por isso uma e outra vez me perguntava: quanta responsabilidade carrega sozinho um homem que toma uma decisão por amor? E não falo de amor próprio, hein? Para os engraçadinhos de plantão, falo de amor pela alteridade. Pelo que se situa justamente fora de nós e sem o qual não somos nada além de corpos vagando, dia após dia, pela imensidão do vazio-nada de nós mesmos. Ocos preenchidos, especialmente agora que estamos em mês natalino, por aquisições cujos sentidos se esgotam antes mesmo que suas parcelas sejam liquidadas na fatura do cartão de crédito.

Mas e eu? Quando terei crédito? Quando? Quanto me darão?

Pior não é nunca ter tido nada pra dividir com alguém. Ruim mesmo é não ter outro pra compartilhar o muito que sem tem.

Dor pela sobra e não pela ausência: como se cura isso? 

Se cura isso?


domingo, 11 de novembro de 2012

(in) tenso

Robert Doisneau, fotógrafo francês


Ainda bem que meu corpo que sua, fede e escorre, me lembra, sábio, que é preciso que eu me renove. Nem que seja só no banheiro.

Continuar amando quem te abandona é o amor mais puro que conheço. Deve ser por isso que sempre suspeitei que masoquismo pudesse ser amor dos bons disfarçado de doença. Pôr à prova diagnósticos com crivo de um CRM respeitado é tão difícil quanto fazer crer que receita verdadeira de vida se faz é com restos. Com o que se tem em mãos mesmo.

Restos de esmalte vermelho nas unhas se tira com acetona. E restos de gente na alma, se tira com o quê?

Porque às vezes ou quase todas as vezes, não há tempo disponível para se fazer listas de compras, para enfrentar filas intermináveis. Porque há certos “sins” que são pra ontem eprontoacabou. Por isso enfrento vazios para oportunizar encontros, mesmo que o amor tenha virado verbo sem sujeito composto. Daí a tentativa de encontrar felicidade no inesperado que desponta toda hora durante esse processo inútil da espera do algo (a abominável coisa para a qual atribuímos mais valor que a nós mesmos) que nos redima da morte, da solidão e da dor.

Indeterminando-me por instantes (infinitos, meu Deus!), personalizo-me. Ganho luz. Tudo pra não me assujeitar a individualidades que, admitamos de uma vez por todas, estão mais perdidas que cego em tiroteio.

Poetizando-me resisto à espera da ruptura desse silêncio que diz tanto, de forma enviesada, interpretada fraternalmente por amigos que escondem chaves de carro pra evitar que se perca a dignidade. Mal sabendo eles que nem precisamos delas pra estar lá. Ao lado daquilo que não se tem, mas se deseja.

Preciso mesmo de transporte é para tirar férias de mim.

Dias cinzas sem amor doem menos ou mais?

Ansiedade, dizem, já é sobrenome de mulher. Batismo consagrado no ultrassom que, sem censura, identifica a vagina oca, infinitamente preenchível de sonhos e desejos, diferentemente do senso comum que sentencia ser apenas a falta de falos.

É possível sentir falta de algo que nunca se teve?

_ Não é ansiedade não, my darling. É fome de vida diária porque três vezes por semana em jejum tá sendo insuficiente, me entende?

_ Então porque você não troca o medicamento? De repente pode funcionar.

_ Não! Vou trocar é de médico! 

Ah... E que conste em ata que já agendei uma visita do técnico da Sky pra próxima terça. Parece que ver TV, às vezes, salva. Só não sei ainda do quê.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Passando a limpo


 Robert Doisneau, fotógrafo francês


Seria a vida, enfim, isso mesmo: um contínuo ir e vir?

Um parto eterno, cujo filho nunca nasce inteiro, porque é, antes, a própria contração? Porque é menos a espera de algo redentor que sucessões e sucessões e sucessões de... Todas e cada uma delas. Todos e cada um deles.

Estamos preparados para esse tanto? Ou desejamos, no fundo, uma espécie de vida inseminada, cuja face se conhece antes mesmo de tocá-la, de vê-la, de senti-la?

— Mas o que eu...

— Não! Não se preocupe, mijito. Você logo desejará outra coisa, você vai ver! Logo ficará insatisfeito com o que tem e ansiará o novo. Acontece com todos. Normal. A fila anda e é preciso encontrar outras razões para movimentar essa engrenagem. Natural.

— Mas é que queria tanto parar aqui... Ficar um tempo...

— Peeeraí!!!! Mas e se eu não voltar??? Se não voltar, eu morro?

— Sim. Mas pode ser de felicidade.

domingo, 23 de setembro de 2012

Luto


fotógrafo desconhecido

Minha irmã me ligou hoje dizendo que estavam de luto.

Elizabeth havia morrido durante o parto. O segundo, coitada.

Meu sobrinho, inconsolado, não quis nem falar comigo pelo telefone. Melhor assim, pensei. Não gostaria de tentar tirá-lo de sua tristeza porque ele precisaria dela pra poder compreender (será que isso se compreende?), ainda que levemente, que o universo feminino é muito complexo. Justamente por conter, de modo irremediável, coisas demasiado duras e outras, assaz delicadas.

Me explico. Antes de Elizabeth morrer, um dia ao acordar, olhei pra gaiola e vi a seguinte cena: no tubo colorido, na parte mais alta dele, estava Arthur, seu digníssimo esposo, roendo, solitário, embora freneticamente, seu amendoim. Seu breakfast de hamster rei.

Na parte inferior do tubo, os cinco filhotinhos, ainda com aquela pele esquisita sobre os olhos que os faziam mais parecer girinos, se digladiando para, como bebês famintos, tomar, como o pai, seu café da manhã.

Elizabeth paradinha, se mantinha firme. Será que também sentia fome?

Nem quis olhar pros olhos dela... Ri por dentro e soltei, lembro-me bem, a seguinte frase: “O mundo animal imitando a vida humana!” E desci, ironicamente, pra tomar meu café da manhã.

Chore mesmo, meu amor. Mas sorria. Sorria porque mesmo morta, Elizabeth foi e sempre será rainha. Não foi esse o motivo de você ter escolhido o nome dela? Rainha porque, como todas as fêmeas do mundo, é forte, é guerreira e aguenta firme muito rojão. Embora, seja, como todos os seres vivos, machos ou fêmeas, frágil, frágil a ponto de ter, quando uma força muito devastadora chega, que ceder ao cansaço e dizer adeus.