quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Acolhida

Juliana Leal, fotógrafa amadora

Sem precedentes são os frutos que brotam quando sobra disposição para a acolhida delicada do infinito contido em cada ser que se conhece quando se está trilhando, com coragem, o próprio caminho. Sendas que reservam menos espetáculos pirotécnicos que zilhões de minúsculos milagres que percebemos sempre e quando o objetivo da trajetória é o encontro com aquilo que, em teoria, mais deveríamos conhecer e amar: nós mesmos. Afinal, “o que você está buscando, está te buscando também”. Aceitar de coração e braços estendidos o tanto que tantos nos vão oferecendo no percurso desse irrevogável encontro consigo mesmo passa a ser tão vital quanto a necessidade do corpo que cede ao irrefreável abismo do gozo, quando simultaneamente compartilhado.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

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Juliana Leal, fotógrafa amadora

Atenção: tudo o que será dito aqui não passará de variações mais ou menos lúcidas de uma série de clichês e lugares comuns sem os quais parece que, nós, seres humanos, não conseguimos viver.

Elenco três para não ser mais pedante do que necessitarei ser para discorrer sobre eles.

1. A lucidez só se apresenta depois de experimentadas doses cavalares de estupidez. Sobre isso algumas divagações: estar lúcido não significa agir corretamente. Funciona, às vezes, a partir de descargas elétricas espaçadas e quase sempre imperceptíveis. Muitos nem as notam. Mas quando as sentem costumam recordar, em flashes rapidíssimos, cenas cotidianas das mais bestas, embora carregadas de uma carga poética que frequentemente revira o valor que a vítima tem dado ao seu tempo presente. Costuma-se sentir descargas elétricas fortíssimas de culpa e doses heróicas de vontade de experimentar algo semelhante de novo. Afinal, cagar é fisiológico, portanto, impossível evitar. Esquisito aqui é cagar justo no poético, quando se sabe que algumas residências acumulam de dois a três vasos sanitários.

2. O aumento da percepção de algo é diretamente proporcional à distância que se toma dele. Aqui, o costumeiro metodismo que exigem as análises empíricas, baseadas em observações atentas e uma necessária proximidade do objeto, não tem nenhum sentido. Vale quase nada. O mandamento é, ao contrario, único e funciona a palo seco: preciso não ter o que amo para me dar conta de que o amo, temperando a receita com um par de suicídios que se dão cada vez que insistimos em rechaçar o inevitável, o que para nós é indispensável, quando escolhemos prazeres de vitrine que nos prometem gozos transcendentais por uma noite e com absoluta discrição. Sem, no entanto, nos advertir que a ressaca dos dias seguintes não será apaziguada com medicamentos de tarja preta, mesmo se tomados por toda a vida.

3. Aproximar a ideia de amor a de posse só se justifica se entendida como um gesto de profundo desconhecimento de si próprio e dos insuspeitáveis limites do próprio ser. Escraviza-se por temor ao impalpável que poderia oferecer o desconhecido? Seria a vida, nesse sentido, uma estúpida repetição do mesmo passo, do mesmo tango, da mesma dor? O que exatamente se pretende quando se diz “te amo”, mas contigo não posso estar? Sadismo a la carte, masoquismo compulsivo ou simplesmente medo de ser feliz?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Desfile

Foto de Sebastião Salgado, fotógrafo brasileiro

Não pôde respirar profundamente, de delírio ou terror, porque tudo acontecia à sua volta rápido demais para ter tempo de identificar, compreender e decidir-se. Ou tomar partido, politicamente falando.

Era capaz, no entanto, em meio ao turbilhão de infinitos mundos de sonhos, narrativas de pavor e amor ao seu redor, identificar um zilhão de detalhes que impedia que sua existência despencasse nas garras do desamor e da inexperiência (ou seria medo?) dos seres à comunhão que não reparte apenas pães, mas consideração e respeito.

Observou entre o trânsito caótico do centro da cidade a moça negra que ia de salto bicolor (preto e branco) de pelica. Usava short estampado florido, blusa de alcinha verde com as alças do sutiã preto à mostra.

Fui incapaz de reagir pautada numa lista de regras ou padrões estéticos. Via ali uma rainha que se equilibrava cuidadosamente em seus sapatos novos entre pedras de um calçamento que outrora foi passarela para o açoite diário de seus antepassados. A mesma cautela que talvez levava o vagalume a brilhar modesto em meio às dezenas de luzezinhas que enfeitavam tantas e tantas casas naquele Natal, ainda que entorno de si houvesse a necessária escuridão para fazer imperar seu brilho.


Mas eu e ela (ele, talvez) sabíamos que não era hora. E que ela viria quando tivesse que vir. Sem explicações. Do mesmo modo que, também sem explicações, emudeceria.

sábado, 4 de outubro de 2014

Suspensão

Kandinsky, artista russo

O som externo não poderia ser mais patético. Não combinava com o concerto interno que levava dentro. Nem sequer um pedaço de pneu de caminhão na estrada, arremessado abruptamente contra o parabrisas de seu carro, a assustara.

Susto maior já havia sentido quando, lançando mão dos dedos, fizera uma conta rápida para calcular o tempo que passara sendo tudo menos ela mesmo. Menos por opção que por condicionamento. Um tanto cuja dimensão decidira desinstalar pouco a pouco pela prática determinada de um sem fim de subverzõeszinhas cotidianas. Ações corriqueiras carregadas de um simbolismo que a faziam se reconhecer cada vez menos como um hamster dentro de um par de tubos coloridos que imitavam pateticamente, mas para a felicidade de muitos, um estúpido parque de diversões.

Experimentava corajosa um afastamento paulatino daquilo que em teoria mais deveria amar. E constatava, não menos horrorizada, que a quietude impávida da cicatriz costumava ser, antes, latejante ferida. E sonhava acordada em sentir seu corpo coberto delas para que pudesse escutar somente a pulsação de seu desejo desesperado em ser tudo aquilo que poderia ser por opção própria.

E suspensa numa névoa feita da mais profunda solidão resolveu: sim, preferia flutuar no vazio. Ao menos esse o havia criado ela. Ele e todo o inominável que viria depois.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Umbigo?

Afrodita, escutura de Alberto Acuña, artista colombiano


Escolher a si próprio no sentido oposto ao do egoísmo, mas do cuidado de si e do amor próprio é um dos gestos mais solidários e difíceis que conheço.

Para quem acha que a solidariedade brota espontaneamente como capim em terreno baldio engana-se. Porque o verdadeiro gesto solidário nasce de um marcado sentimento de autocompaixão. Afinal, o outro só ganha concretude na medida exata e prévia da existência consciente (e quase sempre dolorosa) do si mesmo.

Impossível acreditar, nesse sentido, em doação efetivamente sincera a algo exterior a mim, se não há convicção, a priori, da importância e da infinita beleza do próprio ser.

Há quem costume reduzir essa fórmula em clichês facilmente convincentes que se alastram na velocidade da luz e que vão arrastando hordas de sujeitos cada vez menos convencidos da responsabilidade por suas próprias trajetórias.

Nunca vi humano algum virar santo por se anular por outro ser. Mas já vi muitos enlouquecerem por contabilizarem estupefatos o saldo negativo da equação eu - outros.

Arco-íris de todo dia

por las calles de Cartagena, foto de Juliana Leal


Nem sempre são poéticas as condições de produção da poesia.  As de percepção sim.

É como se se abrisse um fosso espaço-temporal em torno do qual o fluxo cotidiano das coisas seguisse indiferente ao arco-íris que a poesia, sorrateiramente, planta diante de nós e nos inquirisse: “_ Vais recu(s)ar?”

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Bolsa nunca foi acessório

imagem de espetáculo da Companhia de Pina Bausch


A bolsa está para a mulher (algumas delas ou todas, vacilo) assim como a muleta está para o vovozinho. Necessidade estrutural. Ponto de fuga entre os obstáculos vários que vão nos interceptando e esfarelando a pretensa solidez de nossos propósitos, intenções e quereres. E que vai recortando nossos discursos, vazando nosso caminho em imprevisíveis atalhos existenciais que mal nos dão chance do necessário tempo do respiro que abre uma fenda invisível diante da qual temos a chance de fazer escolhas. Agir.

Minha bolsa, em inúmeras ocasiões, abre para mim uma espécie de portal dentro do qual me escondo, despisto, protelo, adio. Sou.

É com ela que tenho a oportunidade de criar, me (re)criar.

Inútil reduzi-la a batons, espelhos e tolices.

Sem ela sou lançada cruamente, e a contragosto, em circunstâncias e me vejo obrigada a assumir a fictícia posição dos que sabem sempre o que dizer e fazer.

Não!

Bolsa nunca foi acessório.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Poética da solidão


Imagem de um espetáculo da Companhia de Pina Bausch

Fazer comida pra uma pessoa só obriga o sujeito a ter uma infinidade de vasilhinhas de plástico (nem me refiro às famosas tupperwares, bonitinhas com suas respectivas tampinhas coloridas, tal e como as mães da gente sonham que tenhamos) cheiinhas de resto de jantares e almoços do que propriamente o conteúdo daquele modelão de geladeira em que há sempre lindas maçãs brilhantes, vermelhas, é claro, iogurtes light, lógico, e algumas garrafas de cerveja, pra não dizer que a criatura é uma espécie de santo disfarçado de reles mortal.
Sem contar o martírio de comer três ou quatro dias o mesmo prato. Porque, claro, pra quem cresceu em meio à lógica do “quem não repete não gostou”, fazer comida a conta gotas tá mais pra pecado inafiançável do que pra inteligência culinária.
Não consigo. A mão erra sempre pra mais.
De igual maneira não dou conta de comer, sem dor na consciência, todo dia em restaurante. Tá certo que pelas contas, pela trabalheira que se poupa diariamente e uma infinidade de excelentes argumentos comer fora acaba sendo a solução redentora dos que moram sós. Mas, sério, fazer comida em casa pode nos livrar de uma série de hábitos que vão nos embrutecendo, pouco a pouco, sem que, sequer, nos demos conta.
Me explico. Há algum tempo defendo o seguinte argumento: é preciso fazer convites para que nos civilizemos. Convidar pra comer está entre as estratégias. Quem convida, nunca foca só no menu. Arruma a casa todinha (passando, pasmem, até lustra-móveis!!!), joga trastes entulhados há séculos fora (afinal, mineiro que se preza mostra sempre a casa inteira, incluindo o banheiro), escolhe a melhor roupa de cama, de banho e chega, em casos mais extremos, a substituir os garfos tortos, que mais parecem tridentes, por um jogo novo da Tramontina (com cabo de plástico, pela pressa e grana) que disfarce, nem que seja um pouco, o primata que existe ao lado de quem tem como cônjuge a solidão.

Não quero dizer, com tudo isso, que viver só seja uma maldição. Ao contrário. Lamber cotidianamente a fuça da solidão talvez seja o modo mais bonito para a acolhida sincera do outro. Afinal, só quem sabe encarar as próprias sombras como projeção necessária de si mesmo pode, um dia, exigir do outro nada além do que ele apenas é.