sexta-feira, 13 de julho de 2012

Celebrar

        Van Gogh, pintor holandês
       
         Parece haver pouquíssimas dúvidas, quando o assunto é celebrar. Pensa-se no outro, com quem dividir o brilho da novidade, com quem compartilhar a satisfação da notícia que, de tão gorda, não pode caber senão em nós e no outro, simultaneamente.
Já se viu guardando uma felicidade só pra si? Ato egoísta, diriam muitos. Mas e se não houvesse com quem partilhar? E se a celebração — longe de significar altas taxas de álcool no sangue, batidinhas nas costas seguidas de um sem-fim de expressões-chave que, de tão repetidas, coitadas, não extraem da gente senão um frágil e, também, ensaiado agradecimento —, por um instante, fosse compreendida menos como uma oportunidade de ser reverenciado e mais como a chance de doar? De doar-se?
É que, ontem, esforçando-me por vencer o que para mim nunca foi algo costumeiro, tentei celebrar uma boa-nova. Repassei rapidamente os personagens (antecipando, mentalmente, o que resultaria como resposta ao convite) e escolhi o primeiro deles: uma amiga. Das antigas.
E foi tentando, timidamente, sustentar o discurso do tim-tim que me vi deslocada, bruscamente, para uma dimensão na qual não contava, definitivamente, estar naquele momento: a dos que retiram a vela dos ombros e a colocam diante dos olhos.
Foi assim que percebi. Foi assim que me percebi. Vi que a celebração dessa minha alegriazinha tinha que acontecer de um jeito diferente. E que o lugar dos que comemoram bem poderia ser o lugar dos que estendem o coração e se dispõem a um nada que, de tão besta, bem que pode resultar no sossego feliz de um corpo prestes a passar por uma intervenção cirúrgica.
Não satisfeita com essa constatação, pensei: abro uma cervejinha, fico feliz e continuo buscando um meio de celebrar... Eis que, aproveitando pra resolver um outro nada com uma vizinha, vejo-me diante de uma mulher visivelmente cansada, humilhada e ferida (moral e fisicamente). Que, em poucos segundos, resumiu sua dor (gigantesca, certamente) em duas ou três lágrimas.
Estendendo dois braços vacilantes em sua direção, vi que o melhor era optar pelo suco que tinha pronto na geladeira, por um guardanapo e pelo meu silêncio. Foi o que fiz.
E celebrei.
Celebrei uma alegria distinta. Muito mais reservada do que aquela que residia em meus pensamentos antes de eu ligar pra minha amiga, antes que tocasse a campainha da casa da vizinha ao lado. Uma alegria sem paetês que me mostrou que deslocar meu olhar para fora de mim mesma poderia significar uma maneira outra de celebrar a dádiva recebida.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Oferendas

Pablo Picasso, pintor espanhol

Queria que fosse eu quem sentisse essa dor, minha filha. Mas não posso! Por Deus, não posso! E é horrível vê-la sofrer assim, sem que nada, ou quase nada possa fazer pra remediá-la, diminuí-la. Mas te ofereço... Deixa ver o que posso oferecer...

Quase sempre que pensamos em ofertas, presentes, mimos, pensamos em coisas. Objetos. Com tamanho, volume, peso e, claro, preço!

Quanto maior a caixa, maior o apreço? Quanto mais bonita a embalagem maior a consideração?

Damos voltas em torno do que parece não ter resposta: O que posso lhe dar? O que será que ele(a) ainda não tem? Algo assim inesquecível, impactante... Único. Sabe?

Não, não sei não.

Na verdade suspeito muito, sabe?

É que o gato de gesso, outrora fofo demais, especial e único, sem nenhuma sombra de dúvida, exigia cuidados vigilantes pra que a patinha esquerda ficasse na posição certa, senão... Pumba! Já era! E foi. Pata quebrada, fucinho arrombado, gato no lixo.

Coisas até podem ser únicas, mas perecem.

Mas o que dizer do amigo que surge diante da porta justo na hora em que o outro a fecha definitivamente na sua cara, pra nunca mais voltar? Quanto vale a mão estendida dizendo “Você vai voltar lá sim, senhora!”?

Que dizer do gesto (que valor lhe dar?) da amiga que fica online precisamente no segundo do rombo aberto no peito por duas (três?) páginas precariamente redatadas, cujas linhas argumentam zilhões de coisas que só serão caladas pela força implacável do tempo?

Como valorar o telefonema totalmente fora de hora a partir do qual a voz materna interroga como um oráculo: o que tá acontecendo? Sei que algo está acontecendo...

Que laço de fita escolher pra luzir a palavra ou mesmo o silêncio que curam ou apaziguam a chaga de outros tantos silêncios e palavras doentes? Que se regozijam do pus que brota da alma cansada de embates inúteis que só terminam por nos reduzir à condição vazia de seres que não são capazes de se dar. De amar.

Onde guardar, senão nas infinitas dobras epidérmicas do nosso corpo, da nossa memória, o calor reconfortante da atitude do outro que, durante a noite inteirinha, pobrecito, insiste em manter nossas costas cobertas, quentinhas?

Como reproduzir a sensação diante do vaso de lírio da avó falecida que, após quinze anos de silêncio, resolve brotar? Quinze anos durante os quais foi, a despeito da preguicinha em florir, diariamente cuidado, lembrado, inclusive pelo bisneto que, ao ver finalmente brancas flores naquele vaso sem gracinha, inquire: a bisa está conosco de novo, né?

Quanto vale o calor da prece do amigo distante que ora, fervorosamente, a ponto de encher o santo saco divino, pedindo pelo amigo que sofre de uma dor criada senão por essa mania insana que temos de valorizar apenas o que está previsto no pacote CVC pra se ter uma vida feliz?

Me pauso e penso mesmo no valor da presença insubstituível desse amigo, amiga... Dessa mãe ou desse outro (quem quer que seja) que simplesmente nos quer. Bem.

E não há oferendas pré-existentes que destituam a implacável força do gesto, palavra, presença, do ato gratuito, espontâneo...  que inundam de afeto o corpo sedento do ser que abre olhos, boca, sexo, alma e coração pra comunhão diária (e desejada) com a felicidade. Gota a gota o en chorros desbordantes.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Hoje, marco A

Mana Neyestani, cartunista iraniano

Se pouco tempo disponível há, pra quê raios tamanha indecisão? Qual o sentido de esticar céus azuis? Dobrar raios de sol? Xerocar gozos inesperados?

Ora bolas! Mas que mal há em protelar a felicidade? Se, como reiteradas vezes, dito já foi, ela finda, cessa, mingua...desaparece?

Que mal há em brincar com a morte daquilo que nos quita el juicio, que nos deja el corazón sobresaltado, el sexo húmedo, cuyos latidos, absurdamente insoportables, nos hacen despertar por la mañana con la mano en el sexo?

Sim! Brinco com a dor porque quando sua vez chega pra valer, mal nos resta fôlego para pedir altas, socorro, arrego, abrigo, guarida. É só soco no estômago. Uma e outra vez. Uma e outra vez.

_ Mas o quê é isso, minha filha? Não te ensinei a pensar? Hein, hein? Nem parece que viveu coisa dura, espora na ferida aberta, fio exposto em mãos desavisadas!

_ Nem parece filha minha!

Ok! Então me fale de amor. Mas só do lado bom. Conteúdo do tipo que encha o espaço-tempo de um relógio-cuco quebrado. Tem como? Não, né?

“Este mundo não se justifica, que perguntas perguntar?”, diz Leminski em Catatau.

É que trago, todo tempo, o mundo pra muito perto e, muitas vezes, não dou conta de fazer a meia-volta. Por isso, dou, uma e outra volta, mas em torno de mim mesma. Então pra quê mundo, se me imundo em mim e nos avessos e entranhas do meu próprio ego?

Pra quê mundo?

Pra quê o outro? Se me infinito nas dobras e contradições de um eu, diante do qual outros eus, o tempo todo, insistem em me te vos tú nós... enjaular, em conceitozinhos facilmente adaptáveis, ao limitado escopo do abcde das questões de múltipla escolha?

Decidido!Hoje marco A!

Que Deus me ajude a errar com dignidade. E, depois da cura, ter ainda fôlego pueril para errar entre as demais opções.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Desfiando cebolas

             Robert Doisneau, fotógrafo francês

          Outro dia, aqui em casa, fatiando uma muçarela em pedaço que tinha comprado, subitamente, me veio à mente a lembrança de como tinha conseguido ter acesso ao instrumento cortante, cujo nome não tenho a mais mínima ideia, para a realização dessa tarefa que, em minha infância, era causadora de efêmeras desavenças entre pais e filhos. Tudo por causa do desejo de cortar o queijo, o presunto ou similares do mesmíssimo jeito que a máquina de fatiar da padaria — tarefa obviamente impossível — e do que, de fato, era possível fazer com uma faquinha muito meia boca que tínhamos disponível, cujo uso era incentivado pela vontade (quase sempre pra ontem) de fazer um misto quente e comê-lo, também pra ontem.
            Nada a ver com ficar esfregando madeira em pedra pra conseguir fazer fogo, mas o fato é que o tal instrumentozinho ao qual me refiro só se deu a conhecer à minha pessoa numa única casa: a de uma amiga chique que tinha. Tamanha foi minha surpresa ao perceber o quanto poderia economizar (já que frios fatiados e em pedaços têm preços diferentes, como muitos sabem), bem como me sentir menos subserviente às tais máquinas fatiadoras dos supermercados e padarias. Alívio!
            O duro foi encontrar o danado do fatiador manual. Foram muitos os passeiozinhos por lojas e lojas de BH, procurando unzinho que fosse para ter também em minha cozinha. Inútil. A coisa parecia não existir. E, como não poderia deixar de ser, foi num dia em que nem me lembrava mais dele que o encontrei. Pasmem: numa loja de materiais de construção!
            Hoje, aqui em Diamantina, encontro vários deles em apenas uma loja e sorrio com o cansaço dos que se orgulham ao olhar para um objeto aparentemente corriqueiro e se lembram de toda uma história (com personagens, roteiro, espaço, tempo, ação...). Pessoas, objetos, desejo, infância, brigas, sabores, buscas, encontros: vastidão de memórias que vão se desfiando, se sobrepondo, tal como cebola...
            Acho que deve ser essa uma das razões que levam muitos a subir nas tamancas ao verem um objeto quebrado, perdido, roubado, corrompido ou desgastado pelo tempo. Acho isso. Porque, claro, não poderia ser só o tal valor material, que tantos insistem em levar em consideração. Isso é pouco. É raso. Acho mesmo.
            “— Ligue não, minha filha, você compra outro som melhor do que aquele; você vai ver!”. É, mãe, o problema é que aquele som, “aquele aparelho de som”, tinha a marca do esforço (em doze vezes sem juros) do trabalho de uma adolescente — euzinha aqui — que mal se iniciara no mundo “shoppiniano” do trabalho celetista e de uma mãe — você, aliás — (sem emprego fixo, pensões ou aposentadorias) que venderia a alma pra realizar o sonho de um filho.
            Talvez, pelas camadas e camadas de memórias que vão se acumulando nas coisas (instrumentozinhos de fatiar frios, aparelhos de som surrupiados e outros), fazendo com que elas pareçam perder a aura de coisas — para os que não lidam com elas como se fossem produtos descartáveis — e comecem a ganhar outras conotações. Se não de seres vivos, ao menos de sistemas orgânicos que vão sendo ressignificados, modificados, desconstruídos, na relação deles conosco, com outros objetos, outros seres, outras pessoas, outras coisas. Contextos outros.
            Já experimentou a sensação do homem ao ver sua amada atual vestida com a blusa presenteada por um ex de mil novecentos e cafunga? As conexões neuronais seguramente se aceleram. E nós, no meio disso tudo... e elas também no meio...
            Talvez seja essa a motivação do assaltado que, ao implorar ao bandido: “— Por favor, não leve meus documentos, não os leve, por misericórdia!”, não para de pensar no chaveirinho de pelúcia que ganhou de um irmão recentemente falecido.
            Talvez seja essa a razão que nos empurra a não nos desfazermos daquela blusa démodé que já debutou, há anos, em nosso armário. E que, mesmo assim, vez ou outra, se vê altiva em contato com nossa pele. Orgia mnemônica.
            Mas, pensando nisso, também penso. Penso muito... Não seria a inversa dessa lógica que nos faz, algumas vezes, tomar certos humanos como coisas? Os afanadores de aparelhos de som, por exemplo?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Mulheres mineiras, ainda há esperança!



Foram inevitáveis as gargalhadas. Mesmo rindo de mim mesma. Admito.
A autora tem razão. Tá osso beijar na boca em BH! Namorar, então, nem se fala!!
No endereço http://armuke.blogspot.com/2009/06/homens-belo-horizontinos-aprenda-lidar.html, encontramos um texto cuja autora, Laura Corrêa, expõe, com irreverência, os motivos pelos quais os homens em BH correm, segundo ela, literalmente, das mulheres. Sejam essas mulheres feias, bonitas, magras ou gordas...
É de passar mal de rir.
Mas tentemos analisar a questão, antes que haja uma emigração em massa da velha capital mineira para qualquer outra urbe brasileira.
Fazer isso não resolverá nosso drama. Acreditem em mim!
Nostálgica, a autora diz que a mulherada atual anda aceitando qualquer coisa que aparece e que, por isso, os homens andam mal-acostumados. Que, no tempo dos avós dela, eles eram mais românticos, educados, cavalheiros... E que, hoje, são as mulheres quem pagam o motel, racham a conta de cinco reais (kkkkkkk!), levam o cara em casa, etc., etc., etc....
! Concordo com tudo! Mas o que fazer diante de tão absurda situação?
Não é pra pôr a culpa em ninguém. Mas, se, histórica e culturalmente, o homem sempre foi colocado em um lugar de superioridade, em relação à mulher, era de se esperar uma revanche pós-anos setenta, por parte deles; não? Mesmo que inconsciente.
Queimamos os soutiens e, agora, eles queimam nosso filme.
Pensemos...
Eles podem até achar o máximo que a gente os leve em casa, rache a conta, pague o motel. Toda comodidade é bem-vinda. Quem não gosta disso? Não é mesmo?!
Mas, em se tratando de relações afetivas, acho que o caminho não é bem por aí.
Foucault teorizou — e muito bem — sobre questões relativas ao poder e não precisamos ir longe pra perceber que é preciso que ele se desloque, se é que vocês me entendem...
O poder não é uma coisa e, portanto, não está localizado em um lugar fixo. Nas mãos dos homens, por exemplo. Nem das mulheres. Ele só tem sentido se funcionar, dinamicamente, por meio de um fluxo que se desloca continuamente. Uma via de mão dupla, em outros termos.
Trocando em miúdos: nenhum homem gosta de mulher “dona de si” o tempo todo.
Ser poderosa é ser capaz de negociar, o tempo todo, ironicamente, a posse desse poder. Ora o detenho, ora não... Me acompanham?
Eu sei que consigo abrir e fechar o portão da garagem pra ele colocar o carro. Mas pra que fazer isso, se o universo conspira, clama, pede, grita pra você dizer: “— Benhê!... Tô tão fraquinha...”. Rsss....
A vizinhança achará seu parceiro um gentleman, se fizer isso. E ele, que de bobo não tem nada, agarrará essa oportunidade de ter seu turno de poder em mãos e, com todas as suas forças, mesmo que esguio, empurrará o maldito portão como se nisso estivesse apostando todas as suas fichas para provar sua virilidade, educação, carinho, cavalheirismo...
Fazer isso não é nada fácil, meninas! Eu sei!Porque para muitas de nós, significaria um retrocesso, em termos históricos. Uma regressão aos tempos da mulher submissa, dependente. Sexo frágil. A completa idiota.
Mas, idiota mesmo — minhas caras — é aguentar toda essa lista de humilhações que Laura enumera muito bem e que foram criadas — admitamos! — por nós mesmas. Cabe a nós, então, extirpá-las e urgentemente.

Somos independentes, poderosas, livres pra ter ou não filhos, pra casar ou não, pra ser Amélia ou não, pra transar antes do casamento ou não, pra... Se é assim, a ascensão social, econômica e cultural da mulher, definitivamente, não deveria significar a substituição inapelável de papéis ou a troca definitiva de lugar social. Mulher que, além de mulher, poderá ser, em tempo integral, marido, pai, amante, homem, encanador, motorista, carregador de embrulhos, etc., etc., etc.... ninguém agüenta!!! Muito menos a homaiada.
Já termino.
Saídas? Existem?
Sim, meninas! Em textos publicados nos anos cinquenta, sessenta e setenta. Acreditem!
Deixem de preguiça e arregacem as manguinhas. Leiam, urgentemente, o livro Correio feminino, de Clarice Lispector. Está reunida, nessa obra, uma significativa quantidade de textos que a escritora publicou, no diário Correio da Manhã, ao longo de sua vida. A maioria deles dirigido ao público feminino daquele contexto; vale frisar.
Adianto: você se surpreenderá com a quantidade de coisas erradas que tem feito. Você entenderá, facilmente, as razões desse nosso pequeno drama existencial contemporâneo. E verá que lutar contra certas coisas dá menos resultado que manejá-las em benefício próprio.
Aí, verá que ter poder pressupõe, como premissa básica, não nos importarmos de oferecê-lo de bandeja para os homens. De vez em quando; é claro! Pra não engessar a tal dinâmica.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Sem título

Denis Darzacq, fotógrafo francês


Dia desses estava num ponto de ônibus e, como este muito tardava em chegar, comecei a inventar pequenas tarefas mentais pra distrair meu incômodo pela espera. Não busquei refúgio em livros, palavras cruzadas ou em qualquer uma das zilhões de distraçõezinhas que os celulares nos oferecem. Foquei foi no chão mesmo.

Pra minha surpresa vi, próximo, mas paulatinamente se distanciando, uma lagarta cruzando a rua. Pensei automaticamente: eca! Eca para a gosma (verde? amarelada? Peraí, lagarta quando morre dá pra ver a cor do seu sangue?) que sairia inevitavelmente de seu corpo frágil, e tão indefeso, meu Deus! ao enfrentar as inúmeras toneladas que iam e vinham em mão-dupla pelo caminho que escolhera percorrer. Que escolhera?

Mas tinha que ser rua, santo cristo? Por que não parede, muro, teto, terreno baldio, sei lá!?

Acompanhei esperançosa pelo que suporia de conquista sua coragem de lagarta suicida, mas não menos convicta de que sua morte era certa. Definitiva naquele recorte espaço-temporal que suspendeu totalmente o meu, tão envolto que estava em seu foco besta à espera de um coletivo azul que me levaria pra não sei onde. Lugar possivelmente menos interessante que aquele para o qual fui abruptamente lançada. Na verdade, eu e a lagarta.

Metade do asfalto ficara para trás. Diante dela e para ela, quanto de caminho conseguiria ainda percorrer? E por que o fazia, praonde ia?

Diante de mim o gosto de uma esperança de inseto me fazia doer cada unidade de automóvel que avistava. Em ambas as direções.

Vontade de ir até lá, pegá-la nas mãos em concha e poupá-la do risco que ainda correria, não faltou. Mas como se cultiva amor por lagarta? Eu definitivamente não sabia. E ela, em seu reinado de andarilha camicase, sequer requeria de mim a escassa esmola de piedade dos que só enxergam o outro quando os veem em situações-drama, mote predileto dos chantagistas emocionais.

E desde quando a gente tem consciência precisa dos riscos inevitavelmente presentes nas trilhas que decidimos percorrer?

“Que destino espera os que enfrentam o desconhecido?”, aproveito a chance pra louvar Leminski. Esses os, aqui, equivalem à lagarta (que, nessa crônica continua lá, no asfalto), a mim (que sigo me lançando em caminhos mais que conhecidamente perigosos, em estradas das mais manjadas e das maisqueesburacadas) e a você... Certeza!

Mesmo assim, vacilo: quanto de novidade ou de repetição de ais, transfigurados em vestes outras, suportaria um defensor de antigas promessas?

Se o risco vale porque a alma não é pequena (menção literária das mais batidas, eu sei) e muito menos a vontade de ir além, vale muito a pena também a sorte ou, dito de outro modo, ter, de vez em quando o cu pra lua. Ah... E vale também ter, sempre em mãos, a oração de Santo Expedito para o caso de querer se meter por sendas áridas, agrestes, ágrias já conhecidas, cuja lembrança do fel se mantém presente, tal e como o ruidozinho da broca do dentista, pra não nos fazer esquecer que viver é muito perigoso sim (já sei!), mas que não arriscar deve ser ainda mais.

Especialmente porque, se a lua for boa ou o cu sortudo, o mundo pode até conspirar para que cheguemos inteiros (?) (os mesmos?) dentro da canoa (sem furos) e, com ambos os remos, na outra margem do “rio”.

Ah! Quanto à lagarta... Sim!


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Checklist

Daniel Spoerri, artista suiço

Por ver frustrados, uma e outra vez, uma e outra vez, os sistemas que elaborara para se ver livre dos sempre recorrentes dramas vivenciados pelos que ainda insistem em amar e acabam em delegacias tentando argumentar que o notebook fora um presente, e não um furto, decidiu-se: agora vai ser tudo na base do checklist.

E que mal havia em definir previamente um par de condições? Seria menos humano agindo assim, se a única coisa que queria era simplesmente evitar os transtornos que naturalmente surgem quando o que separa dois corpos se chama abismo??? Ao menos assim não faria ninguém sofrer... Ao menos assim reduziria as possibilidades de revisitar aqueles “lugares” que transformaram sua individualidade numa inatingível utopia, quando o que sempre escutou foi que necessitaria precisamente dela pra ser autêntico, único, singular. Pra ser feliz.

A listinha serviria, nesse sentido — argumentava — tão-somente para evitar que se iludisse com essas falsas promessas que se nutrem do impossível, num terreno no qual o viável é uma realidade provisoriamente circunstancial.

Por isso, repetia para si, constantemente: “—Diferenças grotescas só se resolvem na novela das oito. E desse roteirozinho televisivo meia-boca já estou por aqui!!! Por aqui, ó!”.

1.      Estado civil?
2.      Estuda?
3.      Trabalha?
4.      Mora onde?
5.      Conversa?
6.   Idade? Mora com quem? (Note que aqui não são duas perguntas, mas apenas uma que se desdobra, inevitavelmente, em duas, ok?!)

Muitas foram as vezes em que se viu impedido de avançar já na primeira questão. Impressionava a quantidade de pessoas que fazia da situação cível um troféu que prometia “total discrição” (leia-se: ausência de afeto) e a inexistência desse turbilhão de conflitos que surgem quando nos dispomos a estar cada vez mais perto, cada vez mais presente, correndo, justamente por agir assim, o risco de pôr tudo a perder.

E foi justo num dia em que nem pensava em aplicar seu questionariozinho besta (até porque nem teve tempo, antes, de se lembrar de sua existência) que sentiu seu corpo vibrar estranhamente. E o melhor: dita vibração não se masturbava solitariamente; pulsava, ao contrário, num erótico e delicioso (oh, Deus!!!) esquema de turnos (recuos e entregas, entregas e recuos...) que tornava o elo entre os dois cada vez mais instigante, cada vez mais necessário...

... cada vez menos dependente de perguntas... simplesmente porque o silêncio (obviamente, grávido de significados) se impunha como a melodia primeira que embalava dois corpos ávidos de um desejo que transcendia (ambos sabiam disso, mesmo sem o dizer) a esfera material das coisas...

... e foi justamente por ter se esquecido do infeliz do checklist, tãããããão essencial, taaaaantas vezes utilizado e reiteradas vezes defendido, que se viu arremessado, abruptamente, a uma dimensão não tão sedutora da vida: na dimensão dos que, mesmo sangrando de desejo, precisam dar vazão ao que sentem escrevendo um texto como este, por exemplo.


sábado, 23 de junho de 2012

Perseguição



Pra quem injeta periodicamente na veia existencial o rico menu cinematográfico norteamericano, desses que se espremer sai sangue, disponível aos montes em canais abertos de TV, videolocadoras (quase sempre as frequentadas por adolescentes ociosos, maridos tele-cervejeiros e solteironas convictas) e, obviamente, nas melhores e mais concorridas bancas de camelô, conceituar o termo perseguição quase sempre leva consigo os sentidos todos, uhuuuuuuu, que a adrenalina, em doses altas, impõe à fragilidade de carne e osso da espécie humana.

Pra mim não.

Perseguir pra mim sempre esteve ligado ao sentido da autossuperação, seja da própria condição animalesca, interposta a toda santa criatura, desde seu nascimento, seja da, quase sempre imperfeita, condição socioeconômicacultural do infeliz.

Venci a segunda, não com pouco esforço. Bem sabem disso os doutores filhos de faxineiras cuja existência não foi vestida, como a de tantos outros, com pagãozinho na cor certa, presenteado, claro, pela sogra feliz e satisfeita com o andar da carruagem social que, graças a Deus, seguiu seu curso tranquilamente. Tudo perfeitamente comprovável, my darling, em quase um tera de registros fotográficos. Se quiser, mando cópia.

Quanto à primeira..., infelizmente, não basta se esquivar, se calar (saída que dói de ambos os lados), enfrentar, se explicar, se desculpar, tentar esclarecer os mal-entendidos (propositais ou não, não importa)... ou se esforçar pra mostrar que não há nenhuma disputa: nem de grana, status ou posição social. Porque sempre pairará a tenebrosa sombra do “certeza que há algo por trás disso”, “aposto que essazinha ou essezinho está aprontando algo”, blá, blá, blá...

Mas e se eu decidisse, toda vez que alguém QUISERPORQUEQUISER assistir a filmes daquele tipo, perseguir borboletas, daquelas azuis de asas grandes?

Perpetuaria para sempre meu estágio na gozosa condição de criança que desrazoa?

Sim!